Setembro de 2012 – D+100 do TMO

O processo do transplante de medula óssea possui alguns marcos para cada paciente, como a data da realização do transplante, por exemplo.

Eu sempre celebrarei o dia 30 de março. Para mim é uma data que celebra uma nova chance, uma nova vida. Alguns pacientes passam a comemorar essa data da mesma forma que comemoram seus aniversários. Eu sempre guardarei com carinho essa data e lembrarei em especial da minha doadora e de todos os doadores de medula que possibilitam a cura para tantas pessoas como eu.

Outro marco num transplante é a data da pega da medula, pois sinaliza que o procedimento foi bem sucedido. A pega significa que as células do doador começaram a se multiplicar e a produzir células do sangue normalmente. As transfusões de hemácias e plaquetas começam a diminuir à medida que seu próprio organismo passa a produzi-las corretamente. O meu primeiro sinal de pega da medula ocorreu exatos quinze dias depois do transplante e
dez dias depois disso eu já estava em casa, fora do isolamento hospitalar. Apesar das visitas diárias ao hospital que se seguiram após a alta, e por um período de tempo as idas ao HC eram até mesmo duas vezes ao dia, poder estar com minha família, no conforto da minha casa, foi certamente uma comemoração. Em casa, nós já tínhamos o habito de comemorar cada alta hospitalar que eu recebia, e apesar de essa não ter sido a mais longa das minhas internações durante meu tratamento foi certamente a mais difícil.

No transplante de medula óssea existe também o marco dos 100 dias. É nesse período que realizamos um check-up médico para saber como nosso organismo está reagindo ao transplante. São exames cardiológico, pulmonar, da medula óssea, etc. Quando cheguei no Dia +100 senti um certo alivio, tipo “ufa, cheguei até aqui”, sabendo que a fase mais complicada havia passado. Geralmente nessa fase o acompanhamento médico passa a ser mais espaçado, deixando de ser quase que diário para quinzenal ou até mesmo mensal, a critério médico.

Nesta fase o que me marcou foi a retirada do cateter, com o qual havia convivido nos últimos 12 meses. A autorização para a retirada significava para mim um parecer positivo da equipe médica quanto a minha recuperação, e por mais que ele tivesse sido muito útil durante o tratamento, não via a hora de tomar um banho gostoso sem me preocupar com o cateter.
O resultado do exame da medula também gerou muita expectativa. No meu caso, mesmo depois das quimioterapias realizadas antes do transplante, ainda havia resíduo de doença sempre que eu realizava esse exame. No exame realizado pós-transplante já não havia mais sinais de doença, e a minha medula era 100% da minha querida doadora. (Digo doadora, pois apesar de ser uma doação anônima, sei que é uma pessoa do sexo feminino) Quer noticia melhor do que essa? Saber que a medula doente foi totalmente substituída por uma medula saudável, vinda da minha doadora?

Esse período pós-transplante me mostrou quanto tenho de ser grata por todas as bênçãos e conquistas. Desde meu diagnóstico sempre confiei muito em minha cura. A maioria dos pacientes, à primeira noticia do diagnóstico de uma doença maligna, sempre pensa “eu, doente, imagina! Esse exame deve estar errado!” Comigo foi diferente, eu não duvidei, apesar de jamais ter imaginado algo de grave ou sério quando fui fazer o exame de sangue que nos levou a chegar ao diagnóstico. A única pergunta que me lembro ter feito ao médico foi “tem cura?” E na resposta afirmativa, foi a isso que me apeguei. Lembro também do médico comentar que o tratamento seria longo, na maioria das vezes de um ano a dois anos, mas nada disso parecia importar. O que são dois anos para uma pessoa jovem como eu? Eu queria ficar curada para curtir muitos e muitos anos ao lado da minha família. Na época não sabíamos qual o tipo de leucemia, qual o tratamento seria necessário, se eu precisaria de um transplante ou não, isso tudo foi se desenhando nos próximos dias, mas a mim o que interessava saber é que eu podia ficar curada, e algo já me dizia que eu iria ficar bem, pois eu já tinha essa certeza em meu coração. Não parei pra pensar se o tratamento seria difícil ou não, se meus cabelos iriam cair ou não e outras coisas que nos remetem a um diagnóstico de câncer. É como se eu estivesse me concentrando em cada dia, deixando as coisas acontecer o mais naturalmente possível para o momento. E como meu pai sempre dizia, a cada dia que passava eu estava mais próxima do fim do tratamento. Ele adorava fazer as estatísticas. Dizia ele: já se passaram x% do seu tratamento (em relação ao protocolo de oito blocos de quimioterapia previamente estipulados). Às vezes eu pensava: só 15%… 30%… 40%…, mas ele com seu positivismo de sempre estava certo. Dias já tinham ficado para trás e aos poucos estávamos chegando lá. Não vejo a hora de tudo ter ficado no passado, sendo somente uma história para contar. Mas vejo hoje quanta coisa já se passou! Quantas etapas vencidas e quanto aprendizado e crescimento pude tirar desses momentos difíceis!

Escrevi o texto acima em 29/07/12 quando estava no carro voltando para Londrina depois de 13 meses morando em Curitiba por conta do meu tratamento. Era um momento de muita alegria, mas confesso que também sentia um friozinho na barriga. Voltar para casa significava mais uma fase vencida, mas ao mesmo tempo sabia que teria uma fase de readaptação. Os primeiros dias em casa foram mistos de comemoração com insegurança. Acho que meu maior desafio era não estar a alguns minutos de distância da equipe médica ou sendo monitorada semanalmente por exames, por exemplo. Apesar de eu não ser o tipo de paciente que liga para o médico a cada espirro, saber que tinha todo o suporte necessário perto era tranquilizante. E me permitir assumir esses medos também não foi tarefa fácil. Pensamentos como “Será que estou fazendo certo?” sempre me rondavam e rondam até hoje. Sempre procurei seguir as orientações médicas a risca, pois sei que boa parte da minha recuperação plena depende disso, mas tenho que saber dosar para que esses cuidados não se tornem um motivo de preocupação.

Quando resolvi voltar de mudança para Londrina, sabia que continuaria com o acompanhamento médico em Curitiba pelos próximos anos. E como Medicina não é Exatas, depois de somente três semanas em Londrina, tive que retornar a Curitiba para um novo tratamento. A previsão é que dure cinco semanas, e quem sabe logo depois posso retornar à Londrina e continuar com minha fase de readaptação em casa.

Helen

10 respostas para Setembro de 2012 – D+100 do TMO

  1. beth disse:

    Helen querida você faz a diferença! Bjo

  2. 243450 disse:

    Que lindo amiga, uma lição de Vida para todos nós!!
    Estou te esperando por aqui com a ansiedade de sempre, rsrsrs
    bjo da sua amiga que te ama muito
    Luiza 🙂

  3. Maria Angélica Barreiros Casquel Stabelini disse:

    Você é com certeza uma pesooa muito especial e abençoada……….isso tudo é um exemplo para muitas pessoas…….que Deus te abençoe sempre….bjo.
    Maria Angélica.(prima)

  4. keli disse:

    Vc ‘e simplesmente demais, prima!!! iluminada como teu nome…Com certeza muito ja se passou e daqui a pouco estara bem tranquila na recuperacao aqui bem pertinho de nos… amamos vc….

  5. Patricia (ex golden blue..rs,) disse:

    Helen termino de ler seu depoimento com lagrimas nos olhos..
    .pelas suas palavras….consigo sentir sua confianca e serenidade que so podem vir de Deus!
    vc sempre foi meu exemplo profissional e agora e pessoal tambem….
    um beijo com carinho
    paty

  6. Fernanda disse:

    Amiga!!! Você é demais!!! Que você é uma pessoa especial eu sempre soube, mas estou ainda mais orgulhosa de você!!! Acho que nem você deve acreditar em tudo o que já fez e viveu nestes últimos meses, né? Pode ter certeza de que já já vc vai estar de volta a Londrina tendo que nos aguentar…!!! Bjo grande para vc.

  7. Flavia Nogueira Orsi disse:

    Vc é linda Helen , em todos os sentidos !!!! Obrigada pela liçao de vida !!! Bjo

  8. Cristiane disse:

    Minha querida Helen, não consigo palavras para expressar o que vocéê é: uma guerreira, um exemplo, uma vencedora, mais acima de tudo é a prova viva de que Deus existe, a fé é essencial e vc é especial!
    Deus continue te abençoando sempre, tenho muito orgulho de vc…

  9. Fatima Barbieri disse:

    Helen…apesar de nao conhece-la pessoalmente é como te conhecesse…sou a mãe numero dois da Sofia(sogra)tb temos passados momentos dificeis,mais quando tenho oportunidade de ler umm depoimento desse,sei que logo a Sofia estara escrevendo o dela…boa sorte pra vc,espero ter a oportunidade de te dar um abraço,desejo pra vc tudo de bom…que tenhua um otimo recomeço…bjs e muita sorte….saiba que o apoio da familia é tudo na vida….

  10. Josi disse:

    Amiga eu sempre fui dua “fã” desde a epoca da Facul….e lendo esse teu depoimento minha admiraçao por vc só aumenta!!!! Vc é yma fortaleza e nos passa essa energia linda!!!! Fica com Deus…..te adoro!

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